segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O Julgamento da Alma - do romance A Herança, de Alma Welt



O julgamento

No saguão do hotel, em Novo Hamburgo, ao balcão, fizemos o check-in, eu e Aline. Pegamos uma suíte, de casal. Teríamos conforto, e eu, talvez a última refeição decente, de condenada. Estes pensamentos me vinham, dramática que sou. Era inevitável.

Naquela noite nós iríamos nos amar como nunca, rolando na cama, aos gritinhos e risos, aos suspiros e gemidos, mas com uma nota de desespero. Eu queria devorar a minha guria, e ela a mim. Eu bebia a sua saliva, todos os seus sumos, como o elixir que me daria forças, a mim, fraca mulher que sou, desprotegida que me sentia, diante das forças esmagadoras que me ameaçavam. Mas eu não podia assustar Aline com a minha fraqueza. Esta menina precisava de mim, da minha força, na qual ela acreditava ainda. Eu não podia decepcioná-la. Até que tarde da noite adormecemos, nuas e suadas, na quente noite de verão, abraçadas talvez pela última vez, eu assim pensava antes de apagar, num sono profundo, como o que antecede a morte.

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A rua, em frente ao tribunal estava lotada. Nosso carro, dirigido por Galdério, com Matilde ao lado, e nós duas atrás, foi interceptado pela multidão e pelos fotógrafos. Minhas fotos já apareciam há dias nos jornais, que faziam o maior alarde, sensacionalistas, prevendo minha condenação. Com grandes óculos escuros, como se espera, aos empurrões, adentramos o tribunal que regurgitava, lotado por uma ansiosa platéia. Mas devo contar que, antes de pôr o pé na soleira,  me virei, tirei os óculos escuros e encarei a multidão, para que vissem a firmeza do meu olhar. Como era de manhã, não haveria flashes para ofuscar-me, nem para tornar vermelhos os meus olhos verdes. Essa foto apareceu nos jornais no dia seguinte, e ela me orgulhou.

Tendo tomado o meu lugar ao lado do doutor Loredano , em meio ao burburinho, onde todos os olhares convergiam para mim, de repente, um silêncio fez-se, pouco antes da entrada do juiz. Era Solange, a soturna, que comandou aquele silêncio, seguido de cochichos, a seguir o juiz com sua toga entrou solenemente e sentando-se bateu o martelo e abriu a sessão:

—SILÊNCIO NO TRIBUNAL!

A seguir declarou solenemente:
— Vamos proceder ao julgamento da citada ré, por crime de seqüestro. Promotor, comece com a identificação da acusada.
Houve um ligeiro burburinho, não sei bem porquê, já que o público sabia do que eu era acusada, e se dividia quanto à legitimidade dessa acusação. Creio que uma parte do público, ignorante, esperava aquelas outras acusações, somadas à de seqüestro.
O promotor aproximou-se de mim, que, conduzida ao banco dos réus, já o esperava muito tensa.

— O teu nome é Alma Morgado-Welt, sim ou não?
— Sim, senhor, Alma Welt.
— Solteira ou casada?
—Viúva, senhor—eu disse, hesitando um pouco.
— Ah! Viúva... e por quanto tempo permaneceste casada?

— Um mês, senhor, eu era muito jovem, e...

— Ah! Parece que estamos diante de uma viúva negra!

Houve uma gargalhada do público, e burburinho, enquanto meu advogado exclamava:

— Protesto, Meritíssimo!

O juiz, severo, batia o martelo e disse:

— Protesto aceito. Promotor, evite brincadeiras e prossiga.

—Então, senhora Welt, ou posso chamá-la senhorita? Tens filhos?

— Não, senhor—eu respondi.— Tive um, que perdi...

— Ah! Sinto muito... esse filho era do teu marido, que morreu?

— Não, senhor, era do violinista Gino Bertellazzi, com quem vivi um ano.

— Ah! Um ano! Pelo visto a senhorita não permanece muito tempo casada.

— Protesto, Meritíssimo!—exclamou mais uma vez o doutor Loredano.

— Protesto aceito, prossiga, promotor.

— Senhorita, já que de alguma forma sabes o que é ser mãe e ter um filho afastado de si, podes imaginar o sofrimento que infligiste à tua irmã, retirando os seus filhos de casa, levando-os e cercando-os de homens armados, para retê-los, contra a própria mãe deles? Sim ou não?

— S...sim, senhor, mas...

— Estou satisfeito, meritíssimo, entrego a ré ao seu advogado, por ora — interrompeu-me o promotor.

Houve um burburinho na sala. Eu permaneci, perturbada, esperando as perguntas do doutor Loredano, dirigindo-lhe um olhar de súplica.

Meu advogado olhou-me profundamente, com um olhar compassivo, bondoso, que me relaxou um pouco.

— Senhorita Alma, és uma pessoa profundamente maternal, não és?

— Sim, sou, acho que sou — respondi.

— Alguém mais a considera assim, quem, por exemplo?

— Não sei, meus sobrinhos, acho, que são tudo para mim. E Matilde, que me conhece bem...

— Senhorita, essas crianças te amam? Como se relacionam contigo?

— Maravilhosamente — disse eu, respondendo primeiro a segunda parte da pergunta.

— E elas te amam? Insisto.

— Sim, claro, e muito, tenho certeza.

— E por quê a senhorita teve que retirar as crianças de sua casa e levá-las consigo? Diga primeiro o nome dessas crianças.

— Patrícia e Pedro... Pedrinho. Sim, tive que retirá-los de sua casa, era preciso. Eles estavam sofrendo, presenciavam brigas violentas entre Solange e seu cunhado Geraldo, com quem ela está vivendo.

Outro burburinho na sala.

— Então, foi no interesse das crianças que agiste, para protegê-las?

— Sim, claro, doutor, eu as defenderei com a minha própria vida se for preciso.

— Meritíssimo, não tenho mais perguntas, por ora. Queria chamar uma testemunha.

— Sim, prossiga, disse o juiz.

— A senhora Alícia Montez, por favor.

Alícia saiu da platéia, onde estava praticamente invisível, e sentou-se no banco de testemunhas. Olhou-me com um olhar assustado e encarou em seguida o meu advogado.

— Senhora Alícia Montez, é o teu nome, não?

— Sim, doutor.

— És casada, senhora?

— Sim, senhor, mas separada, meu marido vive com outra.

— Ah! Sinto muito, senhora. E tens filhos, senhora?

— Sim, mas meu filho mora com a minha sogra, a mãe do meu marido, sua avó.

— Ah! Mas teu filho está bem, não é verdade, e defenderias o teu filho de quem quer que ameaçasse sua felicidade, não é?

— Certamente, senhor. Consegui esse acordo, justamente porque a nova mulher do meu marido não gosta de crianças.

— Ah! Muito bem, e não podias ficar com teu filho, mantê-lo contigo, por quê? Diga-nos a todos, dona Alícia.

— Porque dona Solange não o queria na casa. Dizia que deixava a casa muito cheia e que interferia no meu serviço.

— Protesto, meritíssimo! — interrompeu o promotor.

— Protesto negado, disse o juiz. Prossiga.

— Dona Alícia, continuou o doutor Loredano — Amas muito os filhos da tua patroa, és muito dedicada a eles, pois não?

— Sim , doutor, amo-os como se eles fossem meus.

— E os protegeria de todo o mal, no que estivesse ao teu alcance, não é verdade?

— Protesto, Meritíssimo. O advogado está induzindo a testemunha.

— Protesto negado. Prossiga.

—Sim, doutor, sempre os protegi. Elas são crianças maravilhosas.

— Então não tiveste nenhuma hesitação, nenhum escrúpulo em entregá-los à sua tia, naquelas circunstâncias, naquele dia conturbado, pois não?

— Não, doutor, não hesitei um segundo. Era para o bem das crianças. Elas estavam sofrendo. Pedrinho chegou mesmo a telefonar para dona Alma, pedindo que os viesse buscar. Ameaçou mesmo fugir de casa para ir ao encontro dela, na estância, o que seria impossível, pois é muito longe, centenas de quilômetros. Eu já não sabia o que fazer. Não podia tapar os olhos e os ouvidos das crianças, como queria, para protegê-las dos horrores daquelas brigas, do que falavam já na frente das crianças.

— Protesto, Meritíssimo— exclamou novamente o promotor. Não há provas dessas discussões!

— Protesto negado, prossiga.

— Meritíssimo juiz, não tenho mais perguntas por ora.

O promotor, por sua vez, não quis interrogar Alicia. Eu estava mais aliviada, com o depoimento desta boa mulher, que ao deixar o banco me olhou com doçura... e gratidão.

Então, o promotor adiantou-se e chamou a sua testemunha, que me surpreendeu: um antigo peão de nossa estância, com quem nunca simpatizei, apenas pelo seu olhar.

— Seu nome, senhor.

— Alípio Galdiano, senhor.

— És boiadeiro, na estância Santa Gertrudes, da ré? Sim ou não?

— Sim, doutor, sou. Há mais de 50 anos, embora já não haja muitos bois por lá, desde os antigos donos, antes mesmo do velho Joachim Welt.

— E o senhor tem testemunhado muitas coisas, não é, nesse tempo todo? Tens os olhos bem abertos?

— Certamente, doutor, é o que tenho. Os olhos bem abertos, embora nada possa fazer.

— O que queres dizer com isso, senhor Galdiano?

— Que tenho visto muita pouca-vergonha, esse tempo todo, senhor.

Burburinho na sala.

— Que queres dizer com isso, senhor Galdiano? Explique melhor, exemplifique.

— Ah! Senhor. Desde que a senhorita Alma e seu irmão eram crianças, já acontecia aquilo. Foram pegos pela mãe dos dois, a senhora Ana Morgado, pelados, no pomar, fazendo safadezas. Foram arrastados pelos cabelos e pelos pulsos, no meio da peonada, que riu bastante. A dona Ana estava indignada. A senhorita Alma e seu irmão Rodolfo só lhe causavam desgostos, ao contrário de dona Solange e dona Lúcia, as filhas mais velhas.

— E que mais viste esse tempo todo? Diga, seu Galdiano.

— Bem, durante a adolescência deles, eu observei também os abraços e beijos a toda hora. A coisa prosseguia entre eles, não cessou. E, ao que parece, até hoje.

— Senhor Galdiano, que mais viste na estância, a esse respeito?

— Ah! Doutor, agora a coisa é pior. Depois que Alma voltou de São Paulo, com aquela moça paulista, a sem-vergonhice é maior.

— Como? Que queres dizer?

— Doutor! É uma coisa estranha. Elas se beijam na boca, doutor. E cavalgam nuas, como se ninguém as pudesse ver, no crepúsculo, apenas porque a dona Alma é muito branca e não quer queimar-se. Banham-se nuas, ao luar, no açude, e acariciam-se, beijam-se. E o pior, doutor, é o que aconteceu no bosque, não sei se posso contar...

— Conte tudo, senhor Galdiano, esta é a hora da verdade.

— Protesto, Meritíssimo— interrompeu o doutor Loredano— o promotor julga o mérito do depoimento, de antemão.

— Protesto aceito, continue.

— Minha mulher, com outras do vinhedo, encontrou-as nuas no bosque, adormecidas, abraçadas. As mulheres se reuniram em volta delas. Havia também algumas meninas. Mas elas acordaram e não se abalaram, levantaram-se lentamente e saíram de cabeça erguida, no meio das alas que se abriram, das trabalhadoras, e nem sequer puseram a mão na frente ou atrás. Andavam altivamente, como se estivessem vestidas e como se ninguém estivesse ali. Isso, parece que fez as mulheres permanecerem caladas, de tão espantadas. Elas são feiticeiras, senhor, tenho certeza!

Um burburinho imenso, gritos, risos, protestos.

—Silêncio, silêncio— gritava o juiz, martelando — Prossigam!

— Não tenho mais perguntas, por ora, Meritíssimo—concluiu o promotor.

— Quero interrogar a testemunha, Meritíssimo, disse o doutor Loredano.

— Prossiga — disse o juiz.

— Senhor Galdiano, eras empregado, peão, do antigo dono da estância, pois não? Antes de Joachim Welt, o avô de Alma?

— Sim, doutor, era, desde pequeno. Cresci naquela estância.

— E eras muito leal àquele estancieiro. Como era o seu nome?

— Valentim Ferro, senhor. Um homem sem igual.

— E o senhor Valentim suicidou-se, não é mesmo? Como foi isso?

— Ah! Senhor. Foi algo terrível. Ele enforcou-se no sótão do casarão, no dia seguinte à venda da estância. Estava arruinado, tinha perdido tudo. O comprador já estava se instalando na casa, e ele ainda nem tinha saído com a família. Era muita humilhação. Mas morreu como homem, macho, pois tomou o chimarrão até o último momento, que foi encontrado esparramado no chão, ainda fumegante. Não esquecerei nunca aquela visão, pois entrei naquele local logo em seguida ao velho Welt.

— E juraste, nesse momento, vingá-lo, ao seu patrão, não é mesmo?

— Protesto, Meritíssimo— interveio o promotor.

— Protesto negado. Prossiga.

— Então juraste vingança por teu patrão, sim ou não?

— Sim, doutor, jurei. Mas não atino como sabes disso.

— Isso não vem ao caso. E o que fizeste para essa vingança?

— Ah! doutor, quem sou eu para poder vingar alguém? Sou um pobre peão, tenho de ganhar a minha vida. E ela é dura, senhor.

— Mas agora estás te aposentando, não é mesmo? Não precisas mais trabalhar, não é verdade?

— Protesto, Meritíssimo, isso não é pertinente.

— Protesto negado. É pertinente, prossiga.

— Senhor Galdiano, tens um filho, não é mesmo? Como se chama ele?

— Martim, senhor, mas não está mais comigo.

— Onde está ele, senhor Galdiano?

— Ele deixou a estância, anos atrás e nunca mais voltou.

— Por quê? senhor Galdiano, sabes a razão disso?

— Sim, doutor. Porque Martim se apaixonou por Alma, e ela nem o enxergava. No entanto, o provocava.

— Como assim, senhor Galdiano? Se ela não o enxergava...

— Porque a sua beleza é destrutiva, senhor. Sempre fez mal às pessoas. Mais de um peão brigou por ela, houve duelos, mortes e... até suicídios. E ela nem tomava conhecimento.

— E teu filho então partiu, porque sofria, senhor?

— Sim, e partiu-nos, a todos, o coração.

— E juraste vingança contra Alma, sim ou não? Diga, seu Galdiano.

A platéia estava atônita. Minha vida na estância passava ante meus olhos, com detalhes que eu não costumava evocar na minha memória. Comecei a tremer.

—Não, doutor, quer dizer, sim, de certa forma, mas só da boca pra fora.

— Da boca pra fora, não é? Diga-me senhor Galdiano, como vês a senhorita Alma pessoalmente?

— Senhor, não posso encará-la. Ela é bela demais, e isso é coisa do demônio. Outras pessoas também vêem assim. Veja a sua pele, é branca demais. Ninguém é assim. E não tem uma mancha, uma pinta sequer, que se saiba. Com aquele sol todo do Pampa! Isso é impossível! Ela é da noite! Digo, das trevas. É uma vampira!

A mim, naquele momento, me pareceu que o doutor Loredano cometera um erro, deixando-o falar assim, até instigando aquele homem. As pessoas, o júri, ficariam influenciadas por aquelas imagens terríveis, noturnas, de maldição. Fiquei mais preocupada. Mas o doutor Loredano parecia acreditar que a ignorância daquele homem, ou o seu primitivismo, ficaria patente.

A platéia se agitava.

— Meritíssimo, não tenho mais perguntas.

— Façamos recesso, disse o juiz— disse o juiz, o que me pareceu péssimo, porque aquelas últimas imagens ficariam ressoando. E eu como poeta, tinha que reconhecer que elas eram fortes, até mesmo belas, mas me prejudicavam, me punham em perigo perante a opinião pública, que é sempre também um tanto primitiva. Fui retirada da sala para uma outra contígua. Questionei o doutor Loredano, que me disse:

— Calma, Alma, fique tranqüila, sei o que estou fazendo. O público é na sua maioria simpático a ti, por essa mesma beleza, que parece ser incompreendida por alguns. Isso era de se esperar. Afinal, é isso que se está julgando aqui: a tua beleza, Alma. E por isso este é o julgamento do século, ao meu ver. Vou jogar com isso até o fim! A beleza é positiva, ela vencerá!

— Espero que o senhor saiba mesmo o que está fazendo... — suspirei.

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Começo a me lembrar do filho de Galdiano, aquele que, segundo ele, apaixonou-se por mim. Realmente, eu percebi isso naquela época, como sempre que isso acontece em minha vida. A vítima da paixão(se posso dizer assim), não consegue esconder, mesmo que tente, ou que não consiga expressar diretamente essa paixão, devido a barreiras internas ou sociais. Mas, evidentemente, eu me faço de desentendida, de distraída, claro. Não posso deter-me sobre essas paixões, atendê-las de alguma forma, ou minha vida viraria um caos! Que posso fazer? Tento manter-me o mais distante, o mais inacessível possível. E no entanto, algumas pessoas romperam essas barreiras... e me vitimaram com sua paixão. Como aconteceu quando eu era guria, de treze anos, naquela fazenda em Minas, durante umas férias. E agora, tão recentemente, aquele Pedro, que ainda me doía, e cujo segredo eu guardava da minha Aline, para não chocá-la.

Aline, por sua vez, ao ouvir o depoimento de Galdiano no tribunal, pareceu fechar um pensamento dentro de sua mente ou de seu coração. Ela me olhava, de longe, ali naquela sala onde se decidia o nosso destino, com uma nova interrogação no olhar, e eu sabia a que se referia. Era como se dissesse: “Foi Pedro, não foi, quem te feriu? Ele também não resistiu... Por quê não me contas? Não me és leal?”

A campainha soou, voltamos ao recinto do julgamento. Entrei procurando com os olhos Aline na platéia, mas não a encontrei. O juiz reabriu com uma martelada a sessão. Mas antes fez um pequeno prólogo. Chamou o advogado e o promotor diante de sua bancada e disse:

— Advirto-os, senhores advogados, que o que está sendo julgado aqui, é tão somente um crime de seqüestro, por si só suficientemente grave, de que a ré está sendo acusada. Parece-me que está havendo desvios. O caso está enveredando por meandros não pertinentes ao crime em questão. Agora continuem.
O doutor Loredano disse:
— Vou chamar uma nova testemunha, meritíssimo. A senhorita De Marco, por favor!
Aline entrou, vinda de uma sala ao lado, e não da platéia. Fiquei bastante surpresa, pois o doutor Loredano não me avisara disso. Eu não podia imaginar a minha Aline falando qualquer coisa sobre mim, ou sobre nós, em público. Ela era tão recatada, tão tímida mesmo...
— Senhorita Aline, é o seu nome, pois não?

— Sim, Aline De Marco, senhor.

— E conheces bem a acusada, a senhorita Alma, não é mesmo? O que és dela, podemos saber?

Aline fez uma pausa, hesitante, depois encarou o público e disse:

— Eu... sou o seu amor!

Foi um rebuliço. Eu olhava Aline, que estava desafiante, e meus olhos procuraram também os do doutor Loredano. O que esse homem estava fazendo?

— Silêncio, silêncio!— martelou o juiz— quero silêncio ou mando esvaziar a sala! Não tolerarei comentários, e muito menos, tumultos. Vamos, prossiga.

— Senhorita Aline, o que queres dizer com isso? Vocês são amigas, não é mesmo?

— Sim doutor... somos.

— Então me diga, como é a acusada? Como é Alma Welt?

— Maravilhosa, doutor. Ela é a melhor, a mais meiga e mais bela pessoa por dentro, que possa existir neste mundo. E é incapaz de fazer mal a uma mosca.

— Sim , claro, senhorita Aline, acreditamos nisso, sem dúvida. Por quê então, tu achas que ela está sendo julgada?

— Por seu amor, doutor, por sua coragem de interferir... pelo amor que devota aos seus sobrinhos, que só é comparável ao amor de uma mãe devotada. Ela quis defendê-los.

— Não tenho mais perguntas, meritíssimo senhor juiz.—disse o meu advogado— Quero dispensar a testemunha.

— Um momento—interrompeu o promotor— quero interrogar a testemunha!

— Prossiga—disse o juiz.

— Senhorita De Marco, onde e como conheceste a acusada, a senhorita Alma?

Aline hesitou um pouco, seus olhos ficaram úmidos, e ela respondeu:

— Em São Paulo, no seu ateliê de pintura. Eu sou modelo, e ela me contratou para posar para os seus quadros.

— Como são esses quadros, srta Aline? Tu posavas nua, não é verdade? Era nu artístico?

— S...sim, senhor era.

Neste momento o promotor Maia, estalou os dedos, teatralmente, e mandou entrar o que espantou a platéia: dois homens de terno entraram carregando uma grande tela de minha autoria: Aline nua. Um dos muitos quadros que pintei da minha Aline (como o conseguiram? perguntei-me).

O quadro foi exibido por uns minutos, enquanto o burburinho se instalava. O juiz martelou, mas as pessoas se levantavam, muitas queriam ver mais de perto. O sucesso parecia absoluto. A beleza da pintura, e do modelo, eram evidentes. O tiro saíra pela culatra para o promotor. Mas, esse disse, enquanto o juiz pedia para o quadro ser virado para ele, para que o pudesse admirar:

— Meritíssimo, eis a natureza lúbrica da relação dessas duas. Está evidenciada, está plasmada nesta tela... erótica. Vejam os pêlos púbicos, senhores, ralos, para mais exporem as partes íntimas da retratada. Vejam o brilho... ali, como se... Senhores, isto é intolerável, que museu ousaria expor uma tela assim? Não vemos nada disso em nenhum museu. Comparem até mesmo com as Vênus de Ticiano, que parecem recatadas perto disso. Senhores, essa mulher (e apontou para mim) é uma lúbrica, uma erótica. Nada sabe de maternalidade. É péssimo exemplo para as crianças, como bem podem ver. Já perceberam todos: é uma lésbica, uma ociosa, uma leviana, uma Messalina até mesmo. Tenho provas de inúmeras ligações dessa mulher, com homens e mulheres. É uma Casanova de saias, mais destrutiva que uma Taís, da Antigüidade, ou que Nefertiti. Cleópatra perto dela era uma santa. Esta mulher é até mesmo uma incestuosa, temos fartos indícios disso. Uma mulher assim pode ser mãe? Pode reivindicar os filhos de outra? De sua irmã, mulher respeitável, que só quis defender a sua família e sempre quis defender-se do mal que esta mulher representa dentro de sua própria família? Senhores, jurados, já chega dessa farsa, peço-lhes a condenação dessa hetaira, dessa prostituta que se faz de sagrada, e que decididamente está do lado do mal, no seio de uma família de bem!

A platéia gritava, assoviava, batia o pé. Eu não sabia o que esse barulho significava. Estavam ao meu favor, ou contra mim? O que significava essa reação?

O promotor, então, como um tiro de misericórdia, chamou Solange, minha acusadora, ao banco de testemunhas:

— Senhora Solange, do que acusas a ré. Fale abertamente, fale tudo, este é o momento da verdade.

— Do seqüestro dos meus filhinhos, que me foram arrancados de casa, quando saí por momentos. Quando fui buscá-los, ela apontou as armas de seus capangas, para mim. Quase fomos todos mortos, não fosse a intervenção da polícia, no último momento quando ela estava preste a atirar. Meus filhos estavam presos num quarto, guardados por uma mulher, Matilde, nossa cozinheira traidora, que é sua cúmplice, e que nunca gostou de mim.

— E a relação de sua irmã Alma com o seu irmão Rudolf, que ela chama sugestivamente de Rôdo, como aquele lança-perfume, um narcótico. Como é ele?

— Sim, doutor, é puro incesto. Ela desesperou-nos desde a sua infância, com aquilo. Era uma sem-vergonhice. Eles eram amantes. Talvez o sejam até hoje. Sim, sei que são. É visível. Os abraços, os beijos na boca... até hoje! É intolerável! Essa mulher precisa ser detida. Não tem o menor senso moral!

Eu estava perdida. A platéia urrava, e eu não sabia o que queriam dizer com aqueles gritos. Estaria protestando a meu favor, ou querendo a minha queima? O meu apedrejamento? Eu estava quase desmaiando. Onde estava Rôdo, por quê não fora chamado? Mas se o fôsse, seria melhor? Ele era tão exaltado, o escândalo cresceria às raias do insuportável!

E então, ele foi chamado. O doutor Loredano não percebera que perdera as rédeas de tudo, que estava impotente. Nada mais conseguia acertar. Ia ser um desastre:

— Jovem, como te chamas?

— Rudolf, senhor, Rôdo... Welt.

— És o único irmão de Alma, não é mesmo? O único filho homem. Não é?

— Sim.

— Então, meu jovem, o que dizes de tua irmã, a acusada. Como é a tua relação com ela? Fala abertamente.

Rôdo, meu irmão, belo como um príncipe de cabelos negros, olhou a platéia, encarou a todos e disse firmemente:

— Ela também é o meu amor!

Ai! Eu vi tudo perdido. Fiquei zonza no meio do rumor que parecia uma imensa onda, como um maremoto, cuja tsunami se abateu sobre mim... e desfaleci.

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Acordei minutos depois deitada num banco duro, com uma porção de pessoas à minha volta, enquanto Aline me batia no rosto, o doutor Loredano segurava a minha mão, e um médico tomava meu pulso na outra.

Puzeram-me afinal sentada, eu via tudo meio nublado e girando. Mas logo fui me recompondo enquanto o doutor perguntava:

— Alma, se quiseres peço para interromper o julgamento por motivo de saúde. Aliás me parece aconselhável, porque precisamos atenuar os efeitos dos últimos depoimentos. A platéia está alvoroçada e não sei...

— Não, não, doutor, estou bem. Vamos, quero acabar logo com isso. Vamos lá. Só ajude a levantar-me.

— Mas Alma, não pareces muito bem, afinal desmaiaste. Isso é muito forte. Como vais agüentar mais uma rodada?

— Vamos, doutor Loredano. Estou bem, eu afirmo. Já passou. Foi apenas uma emoção muito forte... e bonita, pelo meu Rôdo. Ele não me decepcionou, mas eu não esperava...

Voltamos para a sala. O doutor Loredano confabulou com o juiz. Ia chamar uma nova testemunha, ou iam encerrar o julgamento com a fala do promotor, a seguir encerrando com a sua, quando levantei-me e pedi a palavra. O doutor Loredano ficou branco, estremeceu. Era o que ele temia.

De pé diante do juiz eu disse:

— Meritíssimo, tenho o direito à minha fala. Quero falar, quero dizer tudo. Tenho esse direito, não tenho?

— Sim, senhorita—disse o juiz— tens o direito de falar, mas sabes a máxima: “Aquele que defende a si mesmo...” Mas se assim o queres, fala!
— Obrigada, senhor juiz. Senhores, senhoras, jurados, Meritíssimo, eu estou aqui, mais nua do que jamais estive. Parece ser a minha sina. 
A platéia riu.

— “Eis a minha vida, senhores, senhoras. Eu nunca me poupei, eu dei meu coração e meu corpo aos meus amores, aos que me amaram. Mas sempre por amor, jamais poderão ver em mim outro interesse, em minha vida. O amor e a poesia. A Arte, senhores, é minha religião, e o amor é meu Deus. Sempre fui assim, e por isso me vitimaram algumas vezes, sem conseguirem me destruir. Meu corpo foi atingido, minha alma foi ferida, mas o meu coração permanece intacto, fiel aos meus amores para sempre, como eles a mim, agora vejo. Minha vida é gloriosa! Eu sei. Podem me encarcerar, Deus me deu a Arte e a beleza, primeiramente em mim mesma, depois, no meu olhar sobre o mundo! Como poderão os maus atingir-me se estou no bem e na beleza? Estes não são mais fortes? Tenho a consciência tranqüila e tenho orgulho da minha fidelidade ao amor universal que sinto em mim. Senhores, poderão encarcerar-me. Mas não poderão tirar-me o amor daquelas crianças, que está em mim e dentro delas ao mesmo tempo. Eu sei que tentei defendê-las. Não consegui, ai de mim, elas permanecem naquela casa, e isso dói, pois sei que sofrem com aquele ambiente... de desamor. Ai! Eu vejo seus braços estendidos chamando por mim, e sofro, sofro por eles. Tenho as mãos amarradas, já estou no cárcere. Mas a minha alma voa, meu coração voa até elas, e elas o sentem, elas serão amparadas por mim, mesmo à distância.
Aline, amor da minha vida, és sublime, não me renegaste. Rôdo, meu irmão, meu amor, igualmente me reafirmaste em teu coração perante todos. Eu estou no chão e nas nuvens ao mesmo tempo. Atirada ao solo, eu flutuo. Nas nuvens, ando com os pés firmes. Ninguém mais pode me atingir a mal. O amor está comigo!”
Calei-me, os olhos cheios de lágrimas que me desciam pelas faces.
A platéia veio a baixo. As pessoas queriam me tocar, levantavam-se de seus assentos, queriam me agarrar, que sei eu?

Fui levada para fora da sala, enquanto o juiz com o seu martelo de madeira martelava em meio ao tumulto. Afinal conseguiu por ordem no ambiente dizendo: “O julgamento está encerrado, o júri agora vai recolher-se para votar. Nos reuniremos dentro de uma hora.”
Durante esse momentos, deixaram Aline ficar ao meu lado, segurando a minha mão enquanto as lágrimas corriam em nós, em silêncio, sorrindo uma para a outra, esperando, nada mais esperando. Plenas, senão felizes. Até que me chamaram e fui levada para a sala, escoltada, novamente. 
O juiz perguntou ao líder dos jurados, que voltava:

— Já fizeram seu julgamento, já chegaram ao veredicto?

—Sim, Meritíssimo, disse o jurado, entregando a um oficial um bilhete que foi levado ao juiz. Este abriu-o, olhou-o rapidamente, mas fez um ligeiro suspense antes de declarar:

Levanta-te, Alma Welt. Tu acabas de ser declarada... inocente. Estás livre, vai em paz!

Os presentes avançaram sobre mim e me carregaram sobre os ombros, fui levada para fora assim, e colocada em novos ombros. A multidão gritava por mim, saudando-me e carregando-me para o meio da rua, por um quarteirão, até os guardas intervirem e me retirarem dos ombros dos populares, no meio de faixas e cartazes. Pude ver que alguns desses cartazes diziam: “ Alma Welt é nossa heroína.” Outro dizia: “Alma Welt é puro amor. Libertem Alma Welt!”

Eu chorava de felicidade e alívio. Procurei Aline, ela vinha também carregada no meio da multidão. Estendemos nossas mãos com esforço, para agarrarmo-nos, e afinal estávamos, ali no meio da multidão, abraçadas num longo beijo, que era saudado, afinal. Vencêramos. O povo consagrava o nosso amor. E a voz do povo...

Podíamos voltar ao hotel, e depois... à estância!